Capitão América – O Soldado Invernal
A Marvel, diferente de outros estúdios, parece aos poucos
aprender com os problemas de seus filmes anteriores. Depois de Homem de
Ferro 2 ser uma cópia inferior do primeiro
filme, o terceiro não podia ter sido mais diferente. Thor passou tempo demais na Terra segundo
os fãs, e O Mundo Sombrio corrigiu isso mostrando boa parte da
continuação em Asgard e outros reinos.
Isso
apenas para dar alguns exemplos. Não que os filmes da fase 2 sejam perfeitos,
claro; que eu quero dizer com isso é que, aparentemente, a Marvel possui um
certo nível de autocrítica, e parece sempre tentar ouvir os espectadores e fãs.
E isso fica mais claro no novo Capitão América.
Uma crítica relativamente comum – embora, pra mim, deslocada por
vários motivos – é a falta de histórias mais
relevantes, como dos Batmen do Nolan, por exemplo. O que é uma
crítica injusta, de certa maneira, já que o primeiro e o terceiro Homem de
Ferro tratam de temas relevantes, e até bem ousados para filmes blockbuster. De qualquer maneira, é o que muitos dizem.
Outra
crítica é a respeito dos roteiros, geralmente considerados muitos simples ou
com muitas conveniências. Não vou entrar no mérito da questão, embora alguns
dos filmes poderiam realmente ter um roteiro mais bem elaborado.
Capitão América: O Soldado Invernal,
para mim, superou estes dois problemas. Primeiro, com uma trama relevante,
depois com um roteiros muito bom que talvez seja o melhor da Marvel Studios até
agora. Nesta resenha, falarei sobre o filme de forma mais genérica possível,
tentando evitar spoilers.
A trama
Para quem não sabe, um resumo básico: Uns dois anos após os
eventos de Os Vingadores,
Steve Rogers está trabalhando para a SHIELD, já que basicamente não tem pra
onde ir nem sabe fazer outra coisa. Até que Nick Fury conta pra ele sobre o próximo passo da
organização: O Projeto Insight, que será supostamente capaz de eliminar potenciais ameaças antes delas acontecerem (graças a um
enorme boost no orçamento da SHIELD, liberado facilmente depois da Invasão
Alienígena em Os Vingadores). Essa ideia com toques de fascismo obviamente não
é muito a vibe do Capitão, e ele resolve se afastar.
Até que Nick Fury é atacado e descobre-se uma conspiração dentro
da SHIELD, que envolve a reativação do Soldado Invernal,
um misterioso assassino, e que mostram que não se pode confiar em ninguém da
agência. Resta ao Capitão, a Viúva Negra e a um novo amigo, o veterano Sam Wilson,
desvendar essa conspiração que vai ter grandes consequências para o Universo
Cinematográfico da Marvel.
O elenco
Primeiro, os novatos (por assim dizer): Marvel tem uma capacidade incrível de
atrair bons atores para seus projetos, sejam eles conhecidos ou não. Anthony
Mackie está
excelente como Sam Wilson, um cara tranquilo, mas que sabe levar as coisas a
sério quando precisa. Embora ele tenha sido introduzido nesse filme, e haja
pouco tempo para ele e o Capitão se tornarem amigos, a ligação entre eles é
feita de forma até natural, principalmente se o espectador ler nas entrelinhas
(o fato dos dois serem soldados faz uma grande diferença no nível de confiança
que se estabelece entre eles).
Robert Redford, bom, é o Robert Redford.
Não tem muito o que dizer, a não ser que ver ele num filme da Marvel aumenta
significativamente a credibilidade da produção. Por um lado, é estranho, mas
por outro, faz muito sentido, uma vez que essa sequência bebe diretamente de
filmes de espionagens dos anos 70.
Fora estes dois, que possuem mais relevância na trama, temos Emily
Van Camp, como
Agente 13, que tá surpreendentemente bem no papel (sou meio preconceituoso com
atores vindo de seriadinhos adolescentes, admito), mas pouco tempo de tela; Frank
Grillo como um
“prequel” do Ossos Cruzados, também muito bem, e Georges
St. Pierre como
Batroc, numa pequena participação, mas bem bacana. Se ele lutasse daquele jeito
no UFC, as lutas seriam bem mais empolgantes, eheuheuehuehue
Os veteranos no universo Marvel não deixam a desejar: A Viúva
Negra e o Nick Fury têm a chance de ganhar mais profundidade
em seus personagens, com mais tempo de tela e mais background; Maria Hill tem
uma participação pequena, mas relevantíssima para a trama, e Peggy
Carter retorna
brevemente, mas de uma forma surpreendentemente bem posicionada em relação à
trama e sua função na vida de Steve Rogers.
Falando no Capitão, achei que o Evans está atuando muito bem.
Está longe de ser um Robert Redford, óbvio, mas eu não me incomodei em nenhum
momento com sua atuação, nem nas cenas mais emocionantes, com Peggy e com o
Soldado Invernal. Aliás, Sebastian Stan aparece bem pouco no filme (apesar de
o personagem estar no título), mas rouba a cena a cada vez que está na tela.
Tranquilamente fica ao lado do Loki como vilão mais impactante do Universo
cinematográfico da Marvel.
O filme
Se tem uma coisa que tem feito bem para os filmes da Marvel foi
ignorar o rótulo de “filmes de super-herói” e passar a ver seus heróis como
personagens capazes de serem inseridos em uma série de gêneros
cinematográficos. No caso do Capitão, cujo primeiro foi um filme de época, sua
inserção no mundo moderno se
dá a partir de um thriller de espionagem, com muita investigação, doses maciças
de conspiração, cenas de perseguição com carros e muitas, mas muitas lutas
corpo a corpo (com um “plus a mais”, é claro). Acho que posso dizer com
segurança que são as melhores cenas de luta que eu já vi em qualquer filme de
herói, da Marvel ou não.
Fora
isso, o filme é muito bem sucedido em fazer a ponte entre o primeiro filme (não
se engane com o tom diferente, Capitão América: o Soldado Invernal é uma
sequência direta de O Primeiro Vingador) e Os Vingadores sem parecer forçado.
Realmente soa como uma evolução natural da história do Steve Rogers.
Personagens
como Sam Wilson e Agente 13 são inseridos na trama de uma forma
surpreendentemente fluída e sem forçadas de barra, o que é incrível para este
tipo de filme que possui muitos personagens e precisa rapidamente introduzir
heróis que nunca apareceram no universo cinematográfico, mas que possuem nos
quadrinhos uma longa história com o protagonista.
O filme também é o mais pé no chão dos filmes da Marvel. Quer
dizer, pelo menos é o que mais soa como pé no chão. Não tem pessoas com superpoderes,
não tem tecnologias muito fora do que consideraríamos viável num universo como
esse, e as poucas referências aos Vingadores são bem pontuadas. Além disso,
apesar de uma piada aqui, outra ali, é o filme mais sério da Marvel Studios.
Falando em pé no chão, o timming do filme não poderia ser melhor
para a Marvel. Em tempos deWikileaks, Edward
Snowden, espionagem internacional, atos patrióticos e violações
dos direitos humanos em prol de uma suposta segurança nacional, Capitão
América; o Soldado Invernal possui ecos desconcertantes e inconvenientes com o
mundo atual.
Fora
isso, apesar do espetáculo e da grandiosidade do filme, a história não esquece
em nenhum momento que o esqueleto da trama é a jornada do Steve Rogers e seu
choque moral com o mundo moderno.
As consequências
Tenho que dar os parabéns para a Marvel pela coragem de mudar
TODO o status quo do universo cinematográfico da Marvel num dos seus filmes
solo ao invés de em um filme dos Vingadores, por exemplo. As coisas que
acontecem no filme trazem mudanças profundas e com certeza terão consequências
diretas para os outros personagens do universo. A primeira coisa que eu pensei
quando o filme terminou foi “eu quero ver como o Joss Whedon vai trabalhar com tudo isso na
continuação dos Vingadores”.
Além disso, o filme tem ramificações profundas para a série Agents of SHIELD também (se você ainda acompanha a
série, recomendo que veja o filme primeiro, para só depois assistir o episódio
desta semana), o que fez muito bem para a série (já assisti o episódio e é bem
bão).
Os problemas
Eu
sempre pontuo se gostei ou não de um filme pela habilidade que ele tem em me
“enganar” enquanto estou assistindo. Neste quesito, Capitão América: O Soldado
Invernal, passou com louvor. Mas depois que cheguei em casa, dormi, acordei e
fui trabalhar, comecei a pensar no filme e lembrei de alguns pontos que ficaram
meio vagos.
A
começar, as motivações dos verdadeiros vilões da história (você já imaginava
que o Soldado Invernal era apenas um marionete seguindo ordens, né?) são
bastante vagas e, se o espectador não prestar atenção nas entrelinhas, fica
parecendo que é o velho “somos vilões por que somos maus”.
Outra
coisa que o filme falhou em explicar direito é como funciona a SHIELD e sua
relação com a política internacional. Por que a agência é, ao mesmo tempo, uma
agência de inteligência americana, e uma organização que responde a um conselho
internacional. Fica complicado entender o real alcance da SHIELD, sua ligação
com o governo americano e com governos internacionais.
Fora,
é claro, aqueles clichês típicos de filmes do gênero (como é que a Viúva Negra
se infiltrou em tal lugar? Em que momento? E assim por diante), que raramente a
gente se dá conta enquanto estamos vendo o filme pela primeira vez.
Talvez o maior “problema” do filme, especialmente para quem é
obcecado por cronologia, é a falta do Gavião
Arqueiro. Como agente da SHIELD, e considerando as mudanças
profundas pelas quais a agência passa, é difícil não ficar com aquele
pensamento de “Carai, onde é que tava o Gavião Arqueiro enquanto tudo isso
estava acontecendo? Tipo, a Natasha não deu nem uma ligadinha pra ele pra
explicar o que tava rolando?”
Mas os erros do filme
são facilmente ignoráveis. Com uma história envolvente, personagens cada vez
mais bem caracterizados e sequências impressionantes até para filmes deste tipo
(em que se espera um nível mínimo de qualidade nas cenas de ação), Capitão
América: o Soldado Invernal é, pra mim, o melhor filme solo da Marvel Studios
até agora, de longe. E o melhor em termos de roteiro.






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